Artigo de opinião
Portugal tem uma oportunidade que continua a ser discutida de forma demasiado fragmentada: transformar as ligações entre o litoral, o interior e Espanha numa verdadeira estratégia de desenvolvimento económico.
O IC8 e o IC31 devem ser analisados nessa perspetiva. Não são infraestruturas com a mesma função, mas podem integrar uma visão territorial comum. O primeiro estabelece uma ligação transversal entre o litoral e o interior Centro; o segundo poderá reforçar a ligação da Beira Baixa a Espanha. Em conjunto, podem contribuir para aproximar áreas industriais, plataformas logísticas, portos, empresas e mercados que hoje não beneficiam plenamente da sua proximidade geográfica.
A questão não é simplesmente construir mais estradas. É perceber como utilizar melhor a posição do Centro de Portugal e do interior na organização económica nacional e ibérica.
Uma posição geográfica que pode valer muito mais
O IC8 atravessa o Pinhal Interior e liga a zona de Pombal à A23, próximo de Vila Velha de Ródão. Ao longo deste eixo encontram-se territórios como Ansião, Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Sertã e Proença-a-Nova, que podem beneficiar de uma ligação mais eficiente aos principais centros económicos do país.
A oeste, o IC8 aproxima-se de Pombal, Leiria, Marinha Grande e Figueira da Foz, territórios com atividade industrial, empresarial e logística relevante. A norte, a rede rodoviária permite alcançar Coimbra e estabelecer ligações a outros centros do litoral e do interior Centro. A nascente, a A23 abre o acesso ao Médio Tejo e à Beira Interior.
Esta posição merece uma leitura mais ampla. O IC8 pode funcionar como uma ligação entre economias com características diferentes, mas potencialmente complementares.
O litoral concentra indústria, serviços especializados, estruturas de distribuição e uma maior proximidade a determinados mercados. O interior dispõe de espaço, recursos agrícolas e florestais, potencial energético, capacidade produtiva e condições que podem ser relevantes para a instalação ou expansão de atividades económicas.
A aproximação destas realidades pode criar oportunidades para ambas as partes. Não se trata de transferir atividade do litoral para o interior, nem de criar uma concorrência artificial entre regiões. Trata-se de permitir que empresas, fornecedores e produtores encontrem parceiros e mercados com menor dificuldade.
Os portos devem fazer parte desta equação
Uma análise económica do IC8 não deve ficar limitada à rede rodoviária. Deve considerar também a ligação aos portos e a sua importância para a circulação de mercadorias.
O Porto da Figueira da Foz merece particular atenção pela sua proximidade ao eixo do IC8 e pela possibilidade de servir atividades industriais e produtivas do Centro. Uma melhor articulação entre as zonas industriais, os centros de distribuição e esta infraestrutura portuária pode reforçar a capacidade exportadora das empresas e melhorar as alternativas logísticas disponíveis.
Mas a análise não deve terminar aí.
O Porto de Leixões, a norte, e o Porto de Lisboa, a sul, são plataformas de dimensão nacional e internacional que fazem parte da rede logística portuguesa. A sua relevância para os territórios servidos pelo IC8 depende da eficiência das ligações rodoviárias e ferroviárias, dos custos de transporte e das necessidades concretas das empresas.
Não faria sentido apresentar estes portos como se estivessem diretamente ligados ao IC8. O que importa é reconhecer que uma melhor articulação do Centro com os grandes eixos nacionais pode alargar as opções logísticas das empresas e reforçar a competitividade dos territórios.
A discussão deve, por isso, incluir não apenas a construção e requalificação rodoviária, mas também a intermodalidade, a capacidade de distribuição e a ligação entre zonas de produção, plataformas logísticas e infraestruturas portuárias.
Lisboa, Porto e o interior: complementaridade em vez de concentração
Lisboa e Porto continuarão a desempenhar um papel central na economia portuguesa. Concentram população, serviços, empresas, conhecimento, estruturas financeiras e ligações internacionais. A questão não deve ser enfraquecer esses centros, mas permitir que a sua capacidade económica se articule melhor com outras regiões.
O Centro de Portugal pode desempenhar uma função de ligação entre os principais polos nacionais e os territórios interiores. O IC8 é relevante precisamente porque permite reforçar essa articulação numa direção transversal, aproximando o litoral de áreas que não beneficiam da mesma concentração de infraestruturas e atividade económica.
Uma política de desenvolvimento equilibrado não consiste em replicar no interior os grandes centros urbanos. Consiste em criar condições para que cada território desenvolva as suas vantagens, participe em cadeias de valor mais amplas e consiga atrair investimento adequado às suas características.
É neste ponto que a acessibilidade deixa de ser apenas uma questão de mobilidade e passa a ser uma questão de competitividade nacional.
O IC8 e o IC31 podem formar uma estrutura económica complementar
O IC8 e o IC31 devem ser entendidos como partes de uma visão mais abrangente.
O IC8 pode reforçar a ligação entre o litoral, o Pinhal Interior e a Beira Interior, aproximando áreas industriais, logísticas e produtivas. O IC31 poderá estabelecer uma ligação transfronteiriça mais direta entre Castelo Branco e Espanha, criando condições para relações económicas mais intensas com a Extremadura e outros mercados espanhóis.
Esta complementaridade permite pensar num corredor territorial que não termina numa fronteira administrativa nem se limita a um conjunto de municípios.
O Corredor Central Ibérico deve ser entendido como uma área potencial de articulação económica entre o litoral português, o Centro, a Beira Interior e os territórios espanhóis que podem beneficiar destas ligações.
A sua utilidade dependerá da capacidade de integrar infraestruturas existentes e futuras, identificar complementaridades produtivas e criar relações comerciais efetivas. Não basta desenhar um corredor num mapa. É necessário perceber que atividades pode servir, que mercados pode aproximar e que obstáculos devem ser removidos.
O risco de melhorar a circulação sem desenvolver os territórios
Existe um risco que deve ser considerado desde o início: uma estrada pode facilitar a passagem de mercadorias e pessoas sem produzir benefícios proporcionais nos territórios que atravessa.
Se as zonas industriais não tiverem acessos adequados, se os parques empresariais estiverem desligados dos principais eixos e se não existir capacidade para atrair empresas e fornecedores, parte importante das vantagens poderá escapar às economias locais.
O Pinhal Interior não deve ser apenas um espaço de passagem entre o litoral e a Beira Interior. Os seus municípios precisam de condições para valorizar os recursos existentes, atrair atividade económica e fixar população.
Isto exige uma política de acessibilidades coerente, mas também planeamento industrial, qualificação profissional, serviços, conectividade digital e cooperação entre municípios.
Exige ainda que se olhe para as necessidades reais das empresas. A previsibilidade dos tempos de transporte, a segurança rodoviária, a qualidade dos acessos e os custos logísticos influenciam as decisões de investimento tanto quanto a distância geográfica.
A requalificação dos troços mais condicionados do IC8, nomeadamente na ligação entre Pombal e Avelar, deve ser considerada neste contexto. Uma infraestrutura com ambição regional e nacional tem de oferecer condições compatíveis com a função que se espera que desempenhe.
Uma estratégia que não pode ficar dependente apenas do investimento público
O Estado tem responsabilidades claras no planeamento e na concretização das infraestruturas. Mas a transformação económica de uma região não se faz exclusivamente através de obras públicas.
Municípios, empresas, associações, instituições de ensino, operadores logísticos e organizações empresariais têm também um papel a desempenhar. É necessário identificar oportunidades, aproximar competências, promover parcerias e melhorar o conhecimento sobre os recursos e a capacidade produtiva de cada território.
A fragmentação administrativa não deve impedir a cooperação económica. Uma empresa de Leiria pode ter interesse num fornecedor da Sertã; um produtor de Proença-a-Nova pode encontrar um mercado em Espanha; uma empresa de Castelo Branco pode beneficiar de contactos com operadores logísticos do litoral.
Estas relações não surgem automaticamente com a construção de uma estrada. Precisam de informação, contactos, confiança e continuidade.
É também por isso que a cooperação entre empresas e instituições deve começar antes da conclusão de qualquer grande obra. Quando as acessibilidades melhorarem, os territórios deverão estar preparados para aproveitar as oportunidades, e não começar nessa altura a procurar parceiros.
O debate deve ser mais ambicioso e mais exigente
Defender o IC8 e o IC31 não significa aceitar qualquer solução técnica ou qualquer investimento sem avaliação. Os custos, os benefícios, a segurança, os impactos ambientais e as alternativas devem ser conhecidos e discutidos publicamente.
Mas a análise também não pode limitar-se ao custo imediato de cada obra ou ao tráfego previsto num determinado troço. Deve considerar os efeitos sobre a atividade económica, a capacidade exportadora, a ligação aos portos, a atração de investimento e a coesão territorial.
É necessário avaliar o que estas infraestruturas podem representar para o conjunto do país, e não apenas para os municípios que atravessam.
Portugal não ganha quando as suas regiões competem isoladamente por recursos e investimento. Ganha quando consegue transformar diferenças territoriais em complementaridades económicas.
O IC8 e o IC31 podem contribuir para essa mudança. Mas o resultado dependerá da capacidade política e institucional para pensar além dos limites administrativos e da disponibilidade dos agentes económicos para construir relações que ultrapassem os seus mercados habituais.
O verdadeiro desafio não é apenas ligar o litoral ao interior ou Portugal a Espanha. É fazer com que essas ligações tenham utilidade económica para quem produz, investe, trabalha e vive nestes territórios.
Autor: Miguel de Valença
22/10/2026